São Paulo No Logo
São Paulo No Logo: série de fotos do Tony, que foi post do Boing-Boing (que chique!)
FERNANDO MEIRELLES
ESPECIAL PARA A FOLHA
UM DIRETOR norte-americano me contou outro dia que sofre de um distúrbio que o impede de entrar em museus.
Ao entrar em uma sala de exposição, seja numa exibição de ciência ou de arte, compulsivamente se sente obrigado a ler todos os textos escritos ao pé dos quadros.
Se não percorrer todas as palavras escritas na sala, não consegue olhar para as pinturas. Sente-se aprisionado pelos textos, como se fossem uma doença que lhe tirasse a visão para as imagens (e é um diretor especialmente cuidadoso com suas imagens).
Disse que este é um distúrbio muito comum, mas que, por mais que tente, não consegue se livrar dele; sua solução foi deixar de freqüentar museus.
Lembrei desta história na semana passada, ao vir pela avenida Tiradentes em direção ao viaduto do Chá. Quando passei diante do prédio da Receita Federal, tive uma visão que me surpreendeu e me inundou de alegria: a cidade de São Paulo estava linda.
Como nós, paulistanos, amamos odiar nossa cidade, estranhei e pensei que a sensação poderia ter sido uma ilusão causada pela luz do sol de final de tarde ou pelo céu especialmente limpo naquele dia, mas não era nada disso.
É que, depois de anos, eu finalmente estava vendo São Paulo ao invés de lê-la. Todas aquelas palavras retiradas das empenas dos prédios e das ruas parecem ter liberado meu cérebro para que ele pudesse ver o que estava por trás.
Me encantei com dezenas de lindas fachadas decô, outras tantas fachadas ecléticas, tão paulistanas, construções do início do século passado ainda intactas, mas antes escondidas por lambris metálicos que sustentavam letreiros.
Percebi então que a compulsão do meu amigo americano talvez seja mesmo um distúrbio comum, eu também sofro deste mal e nem sabia. Me senti orgulhoso como um argentino andando em Buenos Aires, fascinado pela idéia de poder voltar a ver nossa cidade.
E como é bonita São Paulo. E está cada vez mais limpa, mais verde (as paineiras rosa estão prometendo um novo show este ano) e agora também desobstruída das palavras escritas.
Nós não o elegemos, mas sejamos justos, o prefeito Gilberto Kassab (DEM, ex-PFL), como um oftalmologista competente, nos devolveu a visão ou ao menos a paisagem urbana (para que eu não pareça exagerado.) Se eu o visse cruzando alguma daquelas ruas naquele momento, certamente desceria do carro para beijá-lo e agradecer:
- Valeu, doutor.
Fernando Meirelles, 51, que nunca votou em nenhum candidato do PFL, mas está dando o braço a torcer, é cineasta, diretor de "Cidade de Deus" e "O Jardineiro Fiel"
